Thursday, May 14, 2009

"Eu"...

"Eu penso, eu existo" - Descartes

Esta é uma crença que compartilhamos e temos grande dificuldade de colocar sob questionamento. Acreditamos que somos um núcleo fixo e imutável por trás de nossas ações, sentimentos e pensamentos. Um centro de comando cheio de vontades, que faz o que quer e sabe muito bem quais são seus motivos e objetivos, porque é racional e consciente.

Mas, será que é assim mesmo? Vamos pensar: O que é que confere realidade ao tal "eu"? Quem sou eu? Ou, melhor, o que é "eu"?

Um nome? Mas que tem este nome a ver comigo? É uma escolha arbitrária, que nos é imposta no dia de nosso nascimento, legitimada por instituições humanas imaginárias. Pode um nome ser "eu"?

Uma aparência? Mas, quem é aquele estranho que o espelho insiste em nos mostrar?

Uma alma? Mas, se há mais de duzentos anos já sabemos que o que nos anima não é a alma, mas impulsos elétricos cerebrais...

Um corpo, então? Mas, este corpo sou "eu"? Que controle tenho sobre ele? Ele é arrastado por desejos, instintos, gripes, convenções sociais, etc...

"Algo que pensa", como queria Descartes? Mas, sou "eu" que pensa os pensamentos? Os pensamentos vêm e vão, se combinam, se separam, chegam e vão embora na hora que bem entendem... Esta é a verdade. Quantas coisas lembramos mas queríamos esquecer? Quantas coisas esquecemos, mas queríamos lembrar? O mesmo vale para os sentimentos... Sou "eu" que os tenho, ou eles que me têm?

Mas, e a memória? "Eu" lembro! Lembro de tanta coisa! Mas, e tudo aquilo de que nos esquecemos? E tudo aquilo de que nos lembramos não foi já muito alterado, quem sabe totalmente inventado, pela imaginação?

Mas "eu" sou isso e aquilo! Não sou isso e aquilo outro! Gosto disso e não daquilo! Mas estas características não serão também somente fictícias? Marcadas em nossa mente pela força do hábito, da memória e da crença? Afinal, podemos dizer "eu" sou... qualquer coisa, mas isso não será ainda o bastante...

Mas se "eu" não é nada disso, é o que então? A resposta dói um pouco, mas pode também ser libertadora: Ninguém.

"Eu" é apenas uma ficção.

Diante disso, nos resta cantar com os poetas: “Até agora eu não me conhecia / Julgava que era Eu e eu não era” - Florbela Espanca “Não sei quem fui nem sou. Ignoro tudo / Só há de meu o que me vê agora” - Fernando Pessoa

2 comments:

AMIGA said...

"Quem Somos Nós?"

Seus textos me fazem lembrar (falando em lembranças...) de filmes que eu muito gostei...

João said...

quem sou eu?!

pior do que isso é ver evangelion o.o
muito loco!! xD
socorro!